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Sinopse

   Uma chama inédita se acende em Beatriz ao ler o livro que encontrou na recém-reformada casa de férias de sua família. Sempre gostou de ler, mas nunca livro algum havia prendido tanto sua atenção.

   O que mais a intrigava era que aquele não era um livro que ela havia escolhido nas prateleiras de uma grande loja, com uma bela capa e uma sinopse emocionante. Ele a havia atraído, simplesmente, pela essência do que contém um livro: o conjunto de suas palavras, formando frase e histórias - significando. Muito.

   A instigante leitura, no entanto, é misteriosamente interrompida quando um animal furta sua bolsa. É aí que o caminho dela se cruza com o de Davi, que corajosamente recupera seus pertences. Mas os habitantes daquela enigmática cidade têm versões conflitantes sobre esse resgatador e suas histórias incríveis, de mundos novos e portais secretos.

   Em quem ela pode confiar? Acompanhe Beatriz em sua fantástica e envolvente busca pela verdade no Conto Dos Dias.

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Capítulo I
(completo)

Despertar

Carta ao portador do Conto dos Dias

 

    Eu sei o que você está sentindo ao ler essas páginas. Eu também senti. Algo se aquece em seu interior, e sua mente finalmente escuta o que seu espírito há tanto tempo tem gritado. É a característica daqueles que têm sangue real: a chama latente que clama pela liberdade. E é o despertar desse fogo que nos leva até o Livro, o Único Livro.

    Aqui você encontra verdades há muito ouvidas e hoje ignoradas. Mas o que é real, nunca deixará de ser real. Mesmo que venha a ser distorcido, desprezado ou, até mesmo, esquecido.

    O Conto dos Dias te mostrará o caminho para romper a escravidão invisível, mas não imperceptível, que nos é imposta pela ignorância.

***

   As palavras pareciam estar sendo ditas bem ao ouvido de Beatriz. Ela interrompeu a leitura por um momento e olhou para o horizonte, tentando absorver melhor a mistura de informações e sentimentos que a invadiam. O som da cachoeira. O canto dos pássaros. O verde das árvores que a rodeavam e o reflexo dos raios de sol nas águas do rio. Todas as sensações daquele ambiente dançavam em uma deliciosa sinestesia dentro de si. Havia acabado de chegar, mas sentia que já pertencia ao lugar.

   Ela ajeitou-se sob a árvore em que se encostava e olhou novamente para o livro em suas mãos. Ele era espesso e sua capa era de couro marrom envelhecido, com as palavras “Conto dos Dias” estampadas em dourado. Sempre gostou de ler, mas nunca, em seus treze anos de vida, livro algum havia prendido tanto sua atenção.

   Ao final do primeiro capítulo, que Beatriz leu com muito interesse, havia uma carta. Ela falava sobre sangue real, fogo e outras coisas que a garota não entendia muito bem, mas a fizeram sentir uma esperança nova, inexplicável.

   Após a breve reflexão, voltou o olhar para o manuscrito em suas mãos. O último parágrafo da carta era uma advertência:

Esteja atento aos enganadores. Eles podem sentir quando o fogo é despertado e tentarão afastá-lo do Livro. São extremamente sutis, mas igualmente ferozes. Guarde o Único em seu coração, proteja-o com todas as suas forças e você encontrará de volta o Caminho que um dia perdemos.

Com votos de esperança,

Jabez — guardião das armas.

 

   — Beatriz!

   O grito cortou a concentração da garota. Distante, avistou uma mulher fazendo sinal com a mão para que fosse até ela.

   — Já vou! — gritou de volta.

   — Não demore!

   Sua tia, uma senhora de meia idade de cabelos grisalhos e feições simpáticas, deu as costas e voltou em direção à sua casa. Beatriz guardou o livro na bolsa que estava ao seu lado, levantou-se e começou a limpar a poeira de sua calça jeans, quando de repente uma sombra passou sobre ela. A rajada de vento provocou um vácuo em seu ouvido. Assustada, deu um salto para trás. Ao olhar para baixo, viu um par de garras afiadas no chão.

   Uma grande ave havia pousado em sua frente. O animal imponente, de penas acinzentadas e bico pontiagudo, aproximou-se lentamente. Com cerca de meio metro de altura era, sem sombra de dúvidas, o maior gavião que Beatriz já vira.

   Estranhamente, sentiu que aqueles olhos redondos e penetrantes estavam fixados nos seus, de maneira quase intimidadora. A garota permaneceu imóvel, por segundos que pareceram uma eternidade. A ave desviou o olhar para a bolsa e inclinou rapidamente a cabeça em sua direção, logo antes de, finalmente, levantar voo.

   O repentino barulho do bater de suas asas fez Beatriz sentir um frio na espinha. Com o coração palpitando fortemente, advertiu a si mesma que se acalmasse, afinal era apenas uma ave. Sacudiu a cabeça para espantar de sua mente a imagem assombrosa do animal e voltou a se limpar.

   Ela ainda retomava o fôlego quando viu, do alto, o gavião retornando em um rápido mergulho e levando sua bolsa.

   “Não mesmo!”, pensou.

   Naquele momento, o medo que primeiro sentiu foi substituído por uma surpreendente atitude de coragem. Aquele livro havia acendido algo novo nela, e não estava disposta a perdê-lo. Antes mesmo que pudesse perceber, estava correndo e gritando atrás da ave com todas as suas forças.

   O gavião voou em direção ao bosque e Beatriz perdeu-o de vista. Parou por um instante e procurou olhar para a direção de onde ouvia seu grito.

  Então viu, distante, o pássaro. Mas ele não estava voando. Estava caindo. A ave recuperou altura, porém, logo em seguida, desceu novamente, dessa vez soltando a bolsa. Parecia que havia sido atingida por algo. Por fim, retomou o voo e desapareceu no céu.

   Beatriz apressou o passo na direção em que viu a bolsa cair. Após alguns minutos correndo por entre as árvores, não só não havia achado seus pertences, como também percebeu que não fazia ideia de onde estava. Havia corrido tanto, e tão desesperadamente, que até se esqueceu de prestar atenção no caminho.

   Abaixou-se e apoiou as mãos nos joelhos para descansar um pouco. Ainda com a respiração ofegante, o desespero começou a bater. O denso verde das árvores a sufocava. Escutou, distante, o horripilante som da ave, que lhe causou um arrepio da ponta dos pés ao alto da cabeça.

   Ergueu-se novamente, limpou o suor da testa com o dorso da mão e começou a andar, procurando o caminho de volta. Olhou atentamente para todos os lados, tentando reconhecer por onde havia vindo. Foi quando avistou, a alguns metros de distância, uma pessoa sentada sobre a grama, de costas para ela.

   Com muito cuidado para não ser percebida, aproximou-se para ver melhor. O rapaz estava com as pernas cruzadas e um livro aberto sobre o colo. Aproximou-se um pouco mais para ver se... Sim, era o seu livro.

   Desconfiada, continuou observando. De um lado do garoto, viu sua bolsa, aberta. Do outro, uma mochila e um estilingue. Então foi ele quem atingiu a ave, fazendo com que ela soltasse seu livro.

   O garoto não percebeu sua presença, estava muito concentrado na leitura. Beatriz arriscou curvar um pouco a cabeça para poder ver seu rosto. Aparentava ter sua idade, talvez um pouco menos. Ou só parecia assim, por causa dos cachos de seu cabelo. Era magro e, aparentemente, não muito alto.

   Beatriz hesitou em pedir-lhe ajuda, afinal, não sabia nada sobre ele. Mas a necessidade de recuperar seu livro e a completa falta de noção do caminho de volta a fizeram criar coragem para se apresentar.

   — Olá! — disse e percebeu que a voz soou muito mais tímida do que planejou. O menino virou-se, surpreso. Definitivamente não esperava encontrar alguém ali. Beatriz continuou a conversa com cuidado, temendo que ele pudesse ir embora com seus pertences ao mínimo desagrado.

   — Meu nome é Beatriz. Isso é meu. — Tentou manter um tom amigável e apontou para o livro e a bolsa.

   Aquela afirmação pareceu acender um imediato interesse no rapaz, que arregalou os olhos. Afinal, aquela era a dona do livro que ele lia tão avidamente.

   — Oh, desculpe-me! — Ele levantou-se e devolveu para Beatriz os objetos. — Você é nova por aqui? Não me lembro de havê-la visto antes...

   — Sim, sou. É a primeira vez que venho a Carmelo — ela informou, esperando, naturalmente, ouvir um “bem-vinda”.

   Um silêncio constrangedor, no entanto, foi o que se seguiu. O garoto parecia estar com a mente em outro lugar. Sem graça, Beatriz coçou levemente a cabeça.

   — Minha tia tem uma casa aqui, que esteve alugada para outra família por muitos anos. Como eles se mudaram há alguns meses, ela decidiu transformar o lugar em uma casa de férias, e convidou a mim e a meus primos para passarmos uns dias com ela. Chegamos ontem à tarde.

   — Sua tia é a dona da casa do tronco?

   Beatriz ainda não havia escutado ninguém a chamar daquela maneira, mas até que fazia sentido. Na frente da antiga, entretanto bela casa amarela, havia um larguíssimo tronco. Tão largo que poderia até mesmo servir como mesa de jantar, ela pensou.

   — Sim, creio que sim — respondeu.

   O garoto começou a caminhar devagar. Parecia perplexo.

   Beatriz o acompanhou, puxando conversa. Não necessariamente porque tivesse interesse em conversar com ele, mas porque não fazia a mínima ideia de como sair do meio daquele bosque sozinha, e não queria admitir para um estranho que estava perdida.

   Como o rapaz nada respondia, Beatriz continuou procurando assunto para permanecer caminhando com ele. Falou sobre sua família: seus primos, Ana e Artur, eram gêmeos e apenas dois anos mais velhos que ela. Ela não morava na mesma cidade que eles, mas sempre viajavam juntos durante as férias. Tia Raquel foi quem teve a ideia de reformar a casa para que eles passassem aqueles momentos ali. Assim, os jovens aproveitariam o campo e ela curtiria alguns dias com os sobrinhos.

   — Vão ficar aqui por muito tempo? — ele perguntou.

   — Oh, sim! Ficaremos o mês inteiro — ela respondeu com alegria. — Bem, isso se conseguirmos resolver o problema do encanamento lá em casa. Assim que chegamos, descobrimos que o lugar havia sido invadido. Quebraram os canos e nos deixaram sem água.

   O rapaz ainda parecia distante. Silêncio.

   — O que não consigo entender, é porque alguém invadiria uma casa vazia, que não tem nada para ser roubado. — Beatriz completou.

   O menino continuava olhando para frente sem responder. Parecia que algo o preocupava.

   — Por que Rátire queria sua bolsa? — ele questionou.

   — Rátire? — a menina repetiu com estranhamento. — O gavião, você quer dizer?

   O garoto balançou a cabeça afirmativamente. Beatriz achou engraçado o questionamento.

   — E eu lá sei por que algum bicho faz alguma coisa? — respondeu com um sorriso involuntário.

   Provavelmente aquilo não era tão engraçado para ele quanto era para ela, pois não riu da piada.

   — Você conhece aquele pássaro? — ela perguntou.

   — A sua casa não foi a única em que entraram — o menino informou, ignorando a pergunta dela. — Várias casas foram invadidas e reviradas nos últimos dias, inclusive a minha. Mas pouco, e em alguns casos nada, foi levado.

   — E prenderam o invasor?

   — Quem te deu aquele livro? — respondeu com outra pergunta, sem dar atenção ao que ela havia dito.

   Aquela mania de não responder a seus questionamentos já a estava deixando irritada, mas ela esforçou-se para ser amigável e continuar andando com ele, parecia finalmente já estar reconhecendo o caminho.

   — Encontrei ontem.

   — Onde?

   — Em um dos armários da casa de minha tia. Comecei a lê-lo nessa manhã.

   — Então, você não sabe de onde ele vem?

   A curiosidade imediatamente tomou conta dela.

   — Você sabe?

   — Venha comigo. — Ele acenou com a cabeça para que ela o acompanhasse.

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Capítulo V
(trecho)

Em terras de Enki

   Pouco falaram pelo caminho, não podiam chamar a atenção dos inimigos. De tempos em tempos, escutavam os suspiros de dor de Davi e uivos selvagens intimidadores. Beatriz não sabia de quais animais eram e preferia nem pensar nisso, apegou-se ao benefício da dúvida.

   Em certo ponto da jornada chegaram cinco soldados que seguiram os escoltando. Alguns expressavam um misto de espanto e felicidade ao vê-los. Outros, pareciam não muito felizes com os visitantes.

   Viro disse que levariam aproximadamente uma hora para chegar até o castelo. Mas o cansaço, a fome e o medo faziam Beatriz sentir que já cavalgavam por dias.

   Finalmente ela avistou, de longe, uma construção magnífica. Um castelo feito de pedras, com altos muros e torres de vigia.

   Assim que se aproximaram, o portão de ferro foi aberto. Andaram por um belo jardim, onde flores delicadas e coloridas contrastavam com esculturas monocromáticas de animais selvagens.

   Chegaram até a porta que dava para o interior do prédio e desceram de seus cavalos. Adentraram em uma ampla e imponente sala, cujo pé direito alto evidenciava ainda mais a grandiosidade do local.

   No chão, sombras geradas pela iluminação dos candelabros de ouro se projetavam em um elegante tapete claro. Nas paredes, mais animais: quadros com pinturas de leopardos, jacarés, lobos e até mesmo grandes lagartos.

   Entre duas grandes janelas, uma escultura de um homem tocando flauta se destacava. “Deve ser o tal flautista que Viro mencionou mais cedo”, Beatriz concluiu.

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Capítulo VII
(trecho)

Do outro lado do rio

   Em meio à neblina do amanhecer, um homem observava a fumaça que subia da ilha. Sozinho, ele remava o barco que se aproximava das margens.

   Ancorou a embarcação e andou discretamente até a vila cercada por altos muros. Ser invisível era sua especialidade. Passar desapercebido era mais que uma qualidade. Era uma necessidade de sobrevivência para o tipo de tarefa que executava. Apenas algo destoava de sua discrição: um medalhão em seu pescoço, refletindo os tenros raios de Sol com um brilho muito intenso e peculiar.

   Resoluto, passou pelo portão que foi para ele aberto e caminhou até o seu destino. Conhecia bem cada casa, árvore e curva daquele caminho pelo qual já havia andado milhares de vezes, tanto na luz do dia quanto na escuridão da noite.

   Aproximou-se de uma das casas e entrou. Em torno de dez pessoas o esperavam, sentadas ao redor de uma grande mesa retangular. No centro dela, um candeeiro iluminava melhor o lugar, e destacava ainda mais o brilho dos medalhões extraordinariamente cintilantes pendurados no pescoço de cada um ali.

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Capítulo VIII
(trecho)

O monge do poço

   Sob forte chuva e som de trovões, Davi foi carregado pelos guardas para a parte externa do palácio. Avistou um gazebo de madeira, debaixo do qual havia um homem inclinado sobre um poço de tijolos.

   Quanto mais se aproximavam daquele senhor de túnica clara, mais vagarosamente os guardas andavam. Com cautela, colocaram a cadeira de Davi sob a tenda e saíram sem dizer palavra alguma.

   — Aproxime-se. — O monge chamou Davi, sem erguer a cabeça.

   Mancando, Davi dirigiu-se até ele. Apoiou-se sobre o poço e olhou para as águas, para onde o monge também olhava. O rapaz viu seu próprio reflexo. Enquanto contemplava, sentiu uma força puxando seu medalhão para baixo. Assustado, ergueu rapidamente a cabeça. Quis perguntar ao ancião o que estava acontecendo, mas não havia mais ninguém ao seu lado.

   Olhou novamente para o poço, e ao invés de sua imagem, viu o rosto do monge refletido nas águas, encarando-o com seriedade.

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Da Autora

Talita Caroline é esposa, mãe e Odontopediatra, que ama ler e escrever. Redigiu o Conto Dos Dias para compartilhar, por meio de um envolvente mundo imaginário, uma esperança real que transforma a vida na melhor das aventuras.

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©2024 por Talita Caroline

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